quinta-feira, 15 de março de 2012

Poema do meu livro "ENTRE-CORPOS" - a filosofia do ver e do não ver



Da cegueira das mentes brancas[1]
A José Saramago

Ah, aquela cegueira branca
Que cega o Amor, que cega a Morte,
A Vida, o Corpo, o Pensamento,
Que fustiga a Alma em todo o seu ser!

Todos são vítimas. Ninguém escapa
Ao opaco, à ausência da transparência
Daquela luz que não mais se vê,
Nem no princípio, nem no fim,
Dos canais que vão dos olhos
Até ao cérebro.

Só há corpos! Não há olhos!
Só há lentes! Não há olhos!
Corpos e lentes baços, ofuscados.
O Mundo tornou-se invisível.
Nada se vê!
Só se ouvem vozes, tão próximas
Quanto distantes do corpo
Que só se sente, porque se tacteia,
Do corpo que só sente, porque se pressente.

Ah, esta maldita epidemia
Que desventrou a humanidade
Já desventrada com o “Não” do visível,
Com o “Sim” do audível
Que, ainda, nos resta!

Revirai os corpos e os olhos
De todas as almas rarefeitas.
Revirai os ouvidos, as bocas,
Todos os sentidos, todos os instintos…
Agora despertos pela cegueira
Do branco luminoso,
Em leitoso mar transformada.

Atrevei-vos à acção,
Nem que seja uma vez só!

Não há mais maldade tamanha
Que na Terra possa surgir: o erro,
O engano do Ver, que não é visível,
A fraude do Olhar que olha, mas não vê,
O Invisível aos olhos.

Cataratas, glaucomas, miopia...
O nevoeiro, o turvo, o vazio,
O opaco... a cegueira da cegueira...

Não há Lua, não há Sol, não há Estrelas!
Nada brilha por entre a multidão histérica
Dos cegos corpos enfurecidos.

Instala-se o caos, não o dos olhos
Da cara, mas o dos olhos das mentes,
Cada vez mais atribuladas, confusas,
Sem discernimento algum.

Acabaram-se os filtros, os entre-meios,
Os meios-termos.
Os limites apagaram-se.
Tudo se torna possível.

Que moral, que pudor, que pré-conceitos?
Que regras do nu ou do vestido?
Que solidariedade de Corpos e de Almas?
Que tolerância pelo Amor-próprio?
Que tolerância pelo Amor do outro?
Que caminho? Que guia?

Resta-nos Blimunda! A “Sete-Luas”?
‑ Sim, essa mesma. Mas, essa...
Mas, essa... só vê por dentro e de olhos
Fechados num corpo, ainda, virgem!

‑ Desgraça, desgraça... Que desgraça!
É o Humano! Porém, esperai. Não vos
Apresseis. A Luz chegará; o Sol voltará
A iluminar-nos; as Estrelas a cintilarem
E a Lua a mostrar, claramente,
Todas as suas faces.

O Céu voltará a ser azul e não mais branco.
‑ “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.[2]

Isabel Rosete



[1] Para Saramago, escrito no dia da sua morte, 18/06/2010, sob a inspiração das obras “Ensaio sobre a Cegueira” e “Memorial do Convento”.
[2] José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, Círculo de leitores, p. 9.

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