quinta-feira, 15 de março de 2012



Isabel Rosete, publicações impressas (livros) no Brasil e em Portugal

- «Vide-Verso», Antologia Poética, Andross Editora, São Paulo, Brasil, 2008;
- «Roda do Mundo 2008», Antologia Internacional, Ottoni Editora, São Paulo, Brasil, 2008;
- «Poiesis, Volume XVII», Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Editorial Minerva, Lisboa, 2009;
- «Roteiro (s) da Alma», Conto & Poesia, Editorial Minerva, Lisboa, 2009;
- «Poiesis, Volume XVIII», Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Editorial Minerva, Lisboa, 2010;
- «Poiesis, Volume XIX», Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Editorial Minerva, Lisboa, 2010;
- «Vozes do Pensamento», Edições Ecopy, Poetas Contemporâneos, Porto 2010;
- «Folhas Letras & Outros Ofícios», nº 13, Grupo Poético de Aveiro, Aveiro, Fevereiro, 2011;
- «Entre-Corpos”, Edições Ecopy, Poetas Contemporâneos, Porto, 2011;
- Entre outras em jornais e revistas

Isabel Rosete,
Março de 2012

Poema do meu livro "ENTRE-CORPOS" - a filosofia do ver e do não ver



Da cegueira das mentes brancas[1]
A José Saramago

Ah, aquela cegueira branca
Que cega o Amor, que cega a Morte,
A Vida, o Corpo, o Pensamento,
Que fustiga a Alma em todo o seu ser!

Todos são vítimas. Ninguém escapa
Ao opaco, à ausência da transparência
Daquela luz que não mais se vê,
Nem no princípio, nem no fim,
Dos canais que vão dos olhos
Até ao cérebro.

Só há corpos! Não há olhos!
Só há lentes! Não há olhos!
Corpos e lentes baços, ofuscados.
O Mundo tornou-se invisível.
Nada se vê!
Só se ouvem vozes, tão próximas
Quanto distantes do corpo
Que só se sente, porque se tacteia,
Do corpo que só sente, porque se pressente.

Ah, esta maldita epidemia
Que desventrou a humanidade
Já desventrada com o “Não” do visível,
Com o “Sim” do audível
Que, ainda, nos resta!

Revirai os corpos e os olhos
De todas as almas rarefeitas.
Revirai os ouvidos, as bocas,
Todos os sentidos, todos os instintos…
Agora despertos pela cegueira
Do branco luminoso,
Em leitoso mar transformada.

Atrevei-vos à acção,
Nem que seja uma vez só!

Não há mais maldade tamanha
Que na Terra possa surgir: o erro,
O engano do Ver, que não é visível,
A fraude do Olhar que olha, mas não vê,
O Invisível aos olhos.

Cataratas, glaucomas, miopia...
O nevoeiro, o turvo, o vazio,
O opaco... a cegueira da cegueira...

Não há Lua, não há Sol, não há Estrelas!
Nada brilha por entre a multidão histérica
Dos cegos corpos enfurecidos.

Instala-se o caos, não o dos olhos
Da cara, mas o dos olhos das mentes,
Cada vez mais atribuladas, confusas,
Sem discernimento algum.

Acabaram-se os filtros, os entre-meios,
Os meios-termos.
Os limites apagaram-se.
Tudo se torna possível.

Que moral, que pudor, que pré-conceitos?
Que regras do nu ou do vestido?
Que solidariedade de Corpos e de Almas?
Que tolerância pelo Amor-próprio?
Que tolerância pelo Amor do outro?
Que caminho? Que guia?

Resta-nos Blimunda! A “Sete-Luas”?
‑ Sim, essa mesma. Mas, essa...
Mas, essa... só vê por dentro e de olhos
Fechados num corpo, ainda, virgem!

‑ Desgraça, desgraça... Que desgraça!
É o Humano! Porém, esperai. Não vos
Apresseis. A Luz chegará; o Sol voltará
A iluminar-nos; as Estrelas a cintilarem
E a Lua a mostrar, claramente,
Todas as suas faces.

O Céu voltará a ser azul e não mais branco.
‑ “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.[2]

Isabel Rosete



[1] Para Saramago, escrito no dia da sua morte, 18/06/2010, sob a inspiração das obras “Ensaio sobre a Cegueira” e “Memorial do Convento”.
[2] José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, Círculo de leitores, p. 9.

CONVITE


É com muito carinho e consideração que conto com a vossa presença neste evento de celebração da Poesia e da Música:
«Convidamos V. Exª, família e amigos, para o lançamento do livro ENTRE-CORPOS, de Isabel Rosete, dia 24 de Março de 2012, Sábado, às 21.30 horas, na Livraria Fnac, Centro Comercial NorteShopping, Matosinhos.
Acompanhamento musical por Victor Almeida e Silva, evocando Zeca Afonso.»

Saudações poético-musicais,
Isabel Rosete

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Sejamos Natal

Para além de todas as demagogias,
Para além do politicamente correcto,
Para além de todas as hipocrisias...

Celebremos, finalmente, o Espírito do Natal
Em todos os momentos
Desta nossa existência, tão efémera.

Natal é Fraternidade, Solidariedade, Paz,
Amor e Alegria na Terra
E nos Corações dos Homens;

Natal é a apologia do autenticamente Humano,
Em toda a sua essência genuína
De Bondade e de Verdade;

Natal é o enaltecimento de um Mundo
Onde não haja mais lugar para a Crueldade,
Para a Violência ou para a Agressividade;

Natal é a reunião dos Corações sensíveis
Que lutam, desesperadamente, pela União
Dos Povos e das Nações;

Natal é a rejeição da Discriminação,
Dos horrores da Guerra,
Da mutilação dos Corpos e das Almas;

Natal é a consciência da Miséria Humana,
O compromisso da sua superação,
O enaltecimento da Justiça e da União fraterna;

Natal é o triunfo do Bem e do Belo,
A glória de todos os Renascimentos,
A comemoração da Dignidade Humana;

Natal é a benção do sempre Novo,
O louvor de todo o acto de Criação,
De Renovação e de Regeneração.

Sejamos Natal,
Hoje, sempre,
Para sempre...


Isabel Rosete

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


“BREVE ESCLARECIMENTO – em linguagem simples – PARA OS QUE FALAM DA INUTILIDADE DA FILOSOFIA”, por Isabel Rosete

«NÃO SE ESQUEÇAM QUE A FILOSOFIA NOS HABITA, QUER QUEIRAMOS QUER NÃO, EM TODOS OS MOMENTOS DA NOSSA EXISTÊNCIA CONCRETA E DETERMINADA. NÃO TEM NADA DE ABSTRACTO OU DE ILUSORIAMENTE INFUNDADO! E PORQUÊ? PORQUE O SEU OBJECTO DE ESTUDO ESPECÍFICO SOMOS NÓS, HOMENS, EM TODAS AS NOSSAS DIMENSÕES, ESTRUTURA E FORMAS DE SER.

A FILOSOFIA PENSA-NOS E EXPLICA-NOS NO MAIS ÍNTIMO DE NÓS MESMOS, APRESENTANDO CAMINHOS DE VIDA, OU SEJA: NÃO APENAS LEVANTA QUESTÕES, como muitos disseram indevidamente ao longo da sua História, MAS APONTA SOLUÇÕES PARA OS NOSSOS PROBLEMAS EXISTENCIAIS. PORTANTO, PARA OS PROBLEMAS DA HUMANIDADE.

A FILOSOFIA TAMBÉM EXPLICA, CONJUNTAMENTE COM O HOMEM, A NATUREZA, O UNIVERSO, O MUNDO, A SOCIEDADE... NÃO ESQUECENDO NENHUM PONTO DE VISTA DE UM MODO RADICAL, REFLEXIVO E CRÍTICO (eis algumas das características fulcrais do método filosófico tomado na sua generalidade), AO PROCURAR AS “PRIMEIRAS CAUSAS E OS PRIMEIROS PRINCÍPIOS” DE TUDO O QUE EXISTE.

DAÍ A IMPORTÂNCIA DA LEITURA DOS FILÓSOFOS, CONSTRUTORES DE SISTEMAS, COMPOSTOS POR TEORIAS E IDEIAS, PASSÍVEIS DE SEREM APLICADAS, DE SEREM POSTAS EM PRÁTICA, A QUALQUER MOMENTO, EM CIRCUNSTÂNCIAS ADEQUADAS.

CADA SISTEMA FILOSÓFICO É UMA VISÃO/COMPREENSÃO POSSÍVEL DA REALIDADE, SEJA ESTA DE QUE NATUREZA FOR, FEITA POR UM HOMEM – O FILÓSOFO – QUE OBSERVA, INVESTIGA E ESTUDA PORMENORIZADAMENTE O SEU/NOSSO TEMPO.

TAMBÉM VAI PARA ALÉM DESSE TEMPO, PORQUE OS SEUS OLHOS NÃO SÃO MÍOPES; PORQUE OS SEUS OUVIDOS NÃO SÃO SURDOS; PORQUE A SUA MENTE VÊ E ESCUTA TUDO O QUE SE MOVE EM SEU REDOR.

OS FILÓSOFOS NÃO NASCEM DA TERRA COMO OS COGUMELOS! SÃO FRUTOS VIVOS E INTEGRANTES DA SUA/NOSSA HISTÓRIA VIVENCIAL.»

NOTA: Nesta imagem: NIETZSCHE, PESSOA e FREUD – um FILÓSOFO, um POETA e um PSICÓLOGO.

SEM A FILOSOFIA, COMO FUNDAMENTO E REGRA DO PENSAMENTO LÚCIDO, NA SUA ABSOLUTA NECESSIDADE E UTILIDADE, ESTES (entre muitos outros, imensos!) NÃO SERIAM ESSES AUTORES GRANDES, RECONHECIDOS COMO TAIS!

DE SALIENTAR, AINDA, QUE ESTE “ESCLARECIMENTO” EM NADA DIMINUI AS OUTRAS ÁREAS DO SABER COM AS QUAIS A FILOSOFIA SE INTERLIGA CONSTANTEMENTE: a CIÊNCIA, a ARTE, a RELIGIÃO, a POLÍTICA...

PS: ESCRITO, PROPOSITADAMENTE, EM MAIÚSCULAS, ISTO É, COMO SE FOSSE DITO EM VOZ ALTA!

Isabel Rosete
06/12/2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reflexão e multimédia: em busca de um outro modo de Pensar, por Isabel Rosete

Por reflexão e, consequentemente, por capacidade ou raciocínio reflexivo, entende-se a volta atenta do pensamento consciente sobre si próprio que, tanto sob um ponto de vista psicológico como ontológico constitui a sua principal manifestação.
Compreendida num sentido puramente psicológico, a reflexão consiste no abandono da atenção ao conteúdo intencional dos actos para se voltar sobre os próprios actos. De acordo com esta perspectiva, a reflexão apresenta-se como uma espécie da direcção natural dos actos, criando-se, deste modo as condições necessárias para a reversão completa da consciência e a consecução da consciência de si mesmo.
Extrapolando-se, a este nível, as fronteiras estritas da Psicologia, ligamo-nos a uma compreensão de pendor gnoseológico, por nos permitir, embora sempre em conjugação com a perspectiva psicológica, uma análise mais completa das questões concernentes aos actos propriamente reflexivos.
Uma vez que o predomínio da visão e da linguagem da imagem têm proporcionado o desenvolvimento substancial da intuição empírica em função de um certo detrimento da intuição racional, torna-se notório que a capacidade reflexiva das novas gerações é cada vez mais diminuta: a esfera do imediato e do instantâneo têm vindo a substituir o domínio de um pensar autêntico, por atrofiar, em certa medida, essa capacidade essencial da mente humana de penetrar no interior das coisas e de captar a sua essencialidade, de perscrutar o sentido mais profundo das múltiplas significações que o universo ontológico, linguístico e conceptual nos oferece a cada momento.
Talvez encontremos, por intermédio de uma análise conjugada destes três conceitos em análise, a explicação que nos permita compreender porque é que os alunos de hoje não são mais capazes de interpretar (tendo presente o sentido genuinamente hermenêutico que atribuímos a este termo) um simples artigo de jornal sobre um qualquer tema comum, embora apreendam, de imediato, o desenrolar da história de um banda desenhada ou as funcionalidades de um jogo de computador; porque são incapazes de interpretar um dos textos mais “elementares” da literatura contemporânea, embora descodifiquem facilmente um “slogan” publicitário.
A imediatez que esta civilização multimédia tem feito despoletar, a um ritmo verdadeiramente frenético, coarcta a emergência efectiva da capacidade de abstracção que permite chegar ao conceito, aos domínios do universal e do essencial, em prol do instantâneo e do superficial.
Urge a edificação da consciência de que a imagem, o “slogan” publicitário, a banda desenhada, o cinema, o vídeo, o jogo de computador… também são texto e, como tal, devem ser sempre sujeitos a um rigoroso exercício hermenêutico, resultante de um determinado tipo de aprendizagem no âmbito das regras do saber-ler, que a escola e o professor devem promover a cada momento.
Em virtude da instalação definitiva da cultura visual, a linguagem oral e escrita é secundarizada por um outro tipo de linguagem que a imagem eficazmente produz: a icónica. Esta requer, naturalmente, um outro tipo de aprendizagem ao nível dos processos mentais e dos conteúdos que a imagem por si mesma encerra, a qual deve ser dialecticamente articulada com a aprendizagem da linguagem oral e escrita, igualmente considerada no domínio dos processos mentais e dos conteúdos nela imbricados. Esta é a realidade mais evidente do quotidiano escolar perante a qual a educação jamais se poderá alhear.

Isabel Rosete

Da Educação Filosófica – Parte I, por Isabel Rosete

Não seria mau que se tornassem a mostrar as almas e que a filosofia deixasse de ser apenas uma disciplina ensinável para voltar a constituir um engrandecimento e uma razão de vida. Movendo-nos, ainda, no seio dos múltiplos desafios colocados nas últimas três décadas do passado milénio e na crista de tempos de imperativa mudança e inovação educacional, é inevitável caminharmos para uma educação aberta, para além dos disparates legislativos que diariamente assombram a mente dos profissionais da Educação, sem freios políticos ou demagógicos apenas veiculados pelo suposto rigor estatístico de um sucesso escolar fantasiado, quer no que concerne aos conteúdos programáticos, objectivos e métodos, quer no que diz respeito à diversificação dos agentes e práticas das educativas.
Urge a consciencialização crescente e insistente de que a Educação – no seu sentido mais amplo, quer dizer, enquanto formação global da Humanidade – não se deve restringir à estreita concepção de escolaridade, nem tão pouco confundir-se com a mera instrução. Estas distinções conceptuais tornam-se absolutamente necessárias para erguer os fundamentos de uma reflexão séria sobre a educação filosófica e, por extensão, sobre a didáctica da Filosofia, naturalmente singular, em virtude da especificidade desta área do saber jamais redutível ao conceito de “Disciplina”, tal como vulgarmente o entendemos quando nos referimos, por exemplo, à História, à Geografia ou à Matemática.
Não obstante a questão filosoficamente controversa da existência ou não de uma Didáctica exclusiva da Filosofia – alvo de um intenso e polémico debate entre os defensores da sua legitimidade e urgência e aqueles que perspectivam, de um modo assaz suspeito, a aproximação desta, bem como do seu ensino, às denominadas Ciências da Educação – friso, desde já e sem qualquer espécie de reservas, que a Filosofia é, em si mesma, uma pedagogia e uma didáctica e, enquanto tal, o alicerce estrutural das mais variadíssimas formas que envolvam todos os processos de ensino-aprendizagem, quer nos situemos nos domínios da ciências naturais, quer no âmbito das ciências humanas.
Com os antigos gregos aprendemos – e até hoje essa tese ainda não foi refutada – que a Filosofia compreende, na sua essência, os princípios orientadores do seu peculiar exercício comunicativo, os mais sólidos alicerces das suas estratégias de ensinabilidade, as estratégias adequadas para a gestão equilibrada do processo de ensino-aprendizagem, sejam quais forem os conteúdos que a integram, tão vastos quanto ela própria, onde comungam, mais directa ou indirectamente, todas a as ciências que dela nasceram, hoje e sempre, em sangue e alma. Aliás, correria talvez melhor o mundo se as escolas de existência filosófica agissem como um fermento, fossem a guarda da pura ideia, dessem um exemplo de ascetismo, de tenacidade na calma recusa da boa posição, de alegria na pobreza de sempre desperta actividade no ataque de todas as atitudes e doutrinas que significassem diminuição do espírito, ao mesmo tempo se recusando a exercer todo o domínio que não viesse da adesão.
Se atentarmos nas sábias palavras do mestre Agostinho da Silva, também ele filósofo e filosofante, facilmente compreenderemos que o caminho da “Vida Filosófica”, o caminho do Professor de Filosofia e de todos os outros que concebem a arte de bem ensinar como uma das mais nobres missões que alguns eleitos têm a seu cargo, facilmente compreenderemos que a educação filosófica é a base estrutural de todos os processos educativos, porque indica aos outros o rumo ascensional da vida, não deixando que jamais se quebrasse o ténue fio que através de todos os labirintos a humanidade tem seguido na sua marcha para Deus.
Não tomamos a Filosofia, a educação filosófica, que a limite são o mesmo, nem como uma vagabundagem dos espíritos em estado de ócio (mesmo que este seja necessário para se fazer Filosofia), nem como um mero entretenimento literário das mentes vagantes ou como um modo de especulação esquizofrénica, completamente afastado disso a que se chama realidade, nem, muito menos, como um puro subjectivismo de mentes autistas enredadas em mundos virtuais que nada nos dizem da Vida, do Homem, da Natureza e do Universo.
É preciso registar, veementemente, que a Filosofia não cheira a mofo; que a Filosofa não está encafuada no baú apinhado de teias de aranha e de bolas de naftalina, num canto qualquer, do empoeirado sótão dos nossos avós, onde permanecem, lançados, os objectos em desuso.
A Filosofia, a educação filosófica, não é apenas uma das “Belas Artes” encantatórias perante os olhos ávidos de saber, os ouvidos sedentos de um discurso bem elaborado, sonante que paira nos domínios da meta-fíca. Mesmo também assim sendo, a Filosofia, a educação filosófica, é a Vida em todas as suas dimensões, des-veladas ou ocultas; é e está em cada um de nós, seres racionais, sempre que pensamos, ajuizamos, reflectimos ou dissertamos com Espírito Crítico, com esse prazer particular do discernimento as causas, os princípios, que por detrás dos fenómenos se escondem, seja qual for a sua estirpe ou natureza; a Filosofia é um modo peculiar de ver o mundo, de o questionar, pondo-o em dúvida, à prova, sempre com o intuito de chegar à origem, à essência, à raiz, das coisas-mesmas na sua singeleza originária, pelas quais passamos diariamente sem darmos conta da sua existência, e, sobretudo, do modo como existem e são, para além das aparências, das máscaras, dos véus, dos preconceitos que ludibriam as mentes menos atentas, baralhadas nesse frenesim quotidiano que nos esconde a Verdade e a Realidade.
Se a educação filosófica é o motor quase sistemático da problematização do óbvio e do meramente pressuposto ou passível de constatação, também é, em plena simultaneidade, o agente, em permanente activação, de um conjunto de respostas possíveis, ou até mesmo de soluções, assim nos mostra a história da Filosofia, de soluções viáveis para a resolução possível dos múltiplos problemas existenciais que a humanidade vivencia, na maioria das vezes, de uma forma alheada e alienada. Cada sistema filosófico é tão-só uma resposta logicamente organizada, que parte do homem para servir o Homem. É neste sentido que devemos entender a tese de Descartes: viver sem filosofa é
Não obstante o desenlaçar da fundamentação anterior, afigura-se-nos indubitável a necessidade de conferir ao ensino da Filosofia a Didáctica de que ela por si mesma requerer, a qual deverá ser edificada, sempre e inevitavelmente, a partir do seu próprio interior: a melhor formação pedagógica de um professor de filosofia será, e quiçá irredutivelmente, uma sólida formação filosófica. Isto não significa afirmar a absoluta diferenciação disciplinar da Filosofia, nem tão-só a sua tecnicidade. Mas, antes de mais, indica-nos que a formação de filósofos, ou se preferirmos, de ensinantes de Filosofia, deve entender-se como formação de profissionais legítimos, em oposição a qualquer tipo de amadorismo, naturalmente, repugnante.
A Filosofia afirmou-se ontem, e afirma-se hoje, cada vez mais, mesmo por entre aqueles que a negam, ou simplesmente desprezam. A educação filosófica entra, amiúde, nos domínios do necessário, porque os Filósofos, esses etrenos amantes da Sabedoria sem discriminação, jamais ignoram como os homens são feitos, embora sejam mais "ligeiros do que os anjos" e nunca experimentem a necessidade de caminhar entre os mortais bicéfalos, de mentes tão errantes como as aves migratórias, sem pousio certo, sem lugar propriamente determinado, neste Mundo em irremediável con-fusão.

Isabel Rosete
Licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa (UL)
Mestre em "Estética e Filosofia da Arte" pela UL
Doutoranda em "Estudos de Arte", na Universidade de Aveiro (UA), com a Tese «Sobre a "Origem da obra de arte! em Martin Heidegger: Os domínios da Poesia e o Canto dos Poetas»